(Imagens: reprodução/Netflix)
Diz-se que todo bom filme gera discussões por anos a fio. Se for realmente o caso, “Emilia Pérez” certamente se enquadra nesta máxima. O filme acaba de conquistar 13 indicações ao Oscar 2025, incluindo uma particularmente histórica com Karla Sofía Gascón contemplada na categoria de Melhor Atriz. Trata-se da primeira mulher trans a concorrer na categoria, e apenas a quarta a ser indicada de modo geral. Goste ou não do filme, ele já entrou para a história. Nele, Gascón interpreta a personagem-título, que começa a história como Manitas del Monte, o chefe de um cartel sanguinário que recruta a ajuda de Rita (Zoë Saldaña) para realizar o sonho da transição de gênero e mudar completamente de vida.
Gascón veio ao Brasil ciente do que a aguardava: as inevitáveis perguntas e comparações com o brasileiro “Ainda Estou Aqui”. O filme estrelado por Fernanda Torres disputa com “Emilia Pérez” as categorias de Melhor Filme, Melhor Filme Internacional e Melhor Atriz, com Gascón e Torres ambas indicadas. Ainda assim, falar de “Emilia Pérez” é impossível sem contemplar as polêmicas associadas a ele pela representação latino-americana (sendo a própria atriz uma espanhola interpretando uma mexicana) ou o fato de seu maior concorrente na temporada ser justamente um filme brasileiro.
A convite da Paris Filmes, o Cinema Com Rapadura participou de uma mesa redonda com outros quatro veículos para entrevistar Gascón, que, naquele momento, ainda estava na expectativa das indicações ao Oscar. Em uma conversa franca e aberta, ela rasgou elogios a Torres, mas também levantou pontos importantes sobre a repercussão das premiações na era das mídias sociais. Orgulhosa de seu trabalho, ela conversou com classe e bom humor, e trouxe um olhar único sobre os bastidores de “Emilia Pérez”, o filme de língua não-inglesa com mais indicações a Oscar na história.
Leia abaixo a entrevista completa:
Você teve que interpretar duas versões da personagem: Manitas e Emilia. Como foi esse processo de imersão em personagens tão contrastantes e qual o maior desafio?
Bom, acho que o maior desafio no final é o trabalho vocal. Primeiro tínhamos que ver o sotaque, porque eu tive que mudar meu sotaque para um sotaque mexicano. Depois mudar a voz para uma voz mais grave, depois uma voz mais aguda, mais fina. E cantar, porque eu não sou cantora. Então acho que o trabalho mais extenso que tive que fazer na construção do personagem foi com a voz. Felizmente, eu realmente gosto de dublagem e, embora eu tenha um alcance vocal muito amplo, é óbvio que onde eu poderia ter tido mais problemas foi talvez na música, nas canções, porque as notas eram muito altas. Mas acima de tudo eu queria que o sotaque mexicano não soasse fabricado ou uma imitação, mas que fosse um sotaque mexicano de verdade, que ninguém pudesse criticar e até agora não houve ninguém que tenha criticado.
Depois, obviamente, há duas maneiras de se mover, duas maneiras de existir, por assim dizer. Uma parte é escuridão total e a outra parte é a luz dançante, então tem sido uma jornada muito, muito longa. Acho que foi o trabalho de muitas pessoas ao meu redor que me ajudou muito, tanto nos efeitos especiais do rosto quanto na construção física do personagem, movimentos que eu nunca havia explorado tão bem. Para o personagem de Manitas, minhas referências foram Sylvester Stallone e Marlon Brando, e minha principal referência para Emilia foi Catherine Deneuve. Quando a conheci pessoalmente contei a ela e rimos um pouco.
O trabalho que fizemos entre toda a equipe do filme e eu, como atriz, foi muito bom, mas posso dizer que meu trabalho principal foi encontrar a voz perfeita para Emilia em seu papel de transição. E é por isso que quando me dublam em filmes, eu sinto um pouco de pena porque deu muito trabalho. Respeito muito o trabalho dos dubladores, acho maravilhoso e também já fiz profissionalmente, gosto muito. Mas sinto um pouco de pena, alguém em quinze dias ou um mês diz: “bem, nós colocamos essa voz assim, ela é assim, vai continuar assim”. Foi um trabalho árduo encontrar exatamente qual seria a voz perfeita para cada personagem.
Como foi trabalhar com Jacques Audiard? Ele deu liberdade criativa para que você moldasse sua personagem?
Jacques Audiard é para mim o melhor diretor do mundo, pelo menos no trato com os atores. Não sei se tecnicamente ele é o melhor de todos, mas para mim ele é atualmente um dos melhores no mundo, e trabalhar com ele tem sido um verdadeiro luxo, Eu sempre o defino como uma criança brincando com suas bonecas no chão. Ele é alguém que tem uma paixão imensa pelo que faz. É criativo, um verdadeiro artista, alguém que não se casa com suas próprias ideias, eu acho que ele é realmente um gênio. Sinto como se tivessem me dado uma lâmpada, a esfregado, e esse homem apareceu para mim e disse: “Eu lhe concederei três desejos e faremos o que você quiser.”
Esse homem é muito bom, e ele sempre escolhe as melhores coisas. Eu sempre me lembro de quando estávamos começando porque tive a sorte de estar no processo desde quase o começo da produção, desde a pré-produção. E eu lembro que todos obviamente queriam fazer seu próprio filme. Os músicos, o coreógrafo que era o coreógrafo da Madonna… Eu também queria fazer meu próprio filme, todos queriam. E eu fiquei pensando como esse homem pode ter tanta paciência para aturar todos nós porque obviamente todos nós chegávamos para ele com isso. Zoe [Saldana] também queria fazer seu filme; para ela, era um filme sobre uma mulher dominicana que vivia no México, por exemplo. Todo mundo ficava em cima dele.
Minha personagem no começo… Se fosse pelo coreógrafo, ela teria os mesmos números musicais que Rita [Saldana]. A primeira sequência é quando há o rap, e estávamos todos na mesa conversando sobre isso. Acho que Jacques sempre escolheu a melhor maneira para que o filme não se concentrasse apenas numa parte porque se não seria um musical típico. Se dependesse dos músicos seria um musical típico, se dependesse do coreógrafo seria um espetáculo de dança, tipo uma dança japonesa e todo mundo se expressando com as mãos. Se dependesse de mim não teria nem música nem dança, teria sido uma comédia maravilhosa Se fosse pela Zoe ela seria a principal. Pela Selena[Gómez], bom, eu não sei o que teria sido, mas cada queria uma coisa. Então foi muito legal, pois cada um contribuía com algo e Jacques sempre dizia: “o que vocês quiserem”. Então ele fazia o que ele queria, que era tirar o melhor de cada um de nós e de cada coisa que ele tinha no set.
Como você se sente sendo a primeira atriz trans a ser indicada ao BAFTA e a ganhar um prêmio em Cannes? É um passo importante para a representatividade trans no cinema.
Bom, eu realmente sinto muito por ter que ser a primeira em tantas coisas quando estamos em 2025. Eu realmente sinto, me deixa triste. Mas, por outro lado, eu entendo a relevância e a profundidade social e minha responsabilidade social nesse assunto. Como sempre digo, eu não represento ninguém, só posso falar por mim mesma, porque ninguém me elegeu democraticamente para falar ninguém, mas posso ajudar alguém com minhas palavras e atitudes. Como ser humano, acredito que tenho uma responsabilidade muito além do meu trabalho, que acredito ser o mais importante aqui.
Primeiro, há o trabalho no cinema, e não acho que qualquer indicação ou qualquer um dos prêmios que possam me dar tenha algo a ver com a minha sexualidade. Pode ou não chamar a atenção, mas realmente o que está sendo avaliado é o meu trabalho; se for bem feito, é bem feito e, se não, pode ir embora. Me explico: não acho que alguém receberá um prêmio de atuação em Cannes ou em qualquer outro lugar, por orientação sexual ou cor de cabelo. Senão, dariam para qualquer um que chegasse com algo diferente.
Mas vivemos em um mundo terrível, onde todos os dias homens como Bolsonaro, Trump ou qualquer outro aparecem por aí para tentar tirar nossos direitos como seres humanos e há muitos que os aplaudem. Isso é uma vergonha. E estamos em um momento muito perigoso porque tudo parece uma brincadeira. Você os vê e diz: “nossa, que engraçado”. Eles dançam e falam bobagens e você ri. “Eu vou ficar com o Canadá”, “eu vou ficar com o Polo Norte”, “vou mandar foguetes para o espaço”, e todo mundo aplaude. Mas foi assim que outros começaram. Humanos são os únicos animais que tropeçam duas vezes na mesma pedra, então, como Karl Popper [filósofo conhecido pela teoria do Paradoxo da Tolerância] diz, temos que ter muito cuidado, porque tolerar os intolerantes acaba com a tolerância.
E estamos em um momento muito, muito perigoso. Eu não conseguia acreditar quando eles elegeram esse homem na primeira vez e agora de novo. Eu não sei se devo contestar isso ou não, porque isso também acontece o tempo todo, com gente odiando as pessoas simplesmente por existirem, como até a J.K. Rowling. E é sempre uma constante o que esses líderes mundiais repugnantes fazem: culpar pessoas que não têm culpa de nada por todos os problemas que existem na humanidade. Eu sou o problema do porquê as pessoas não têm empregos, do porquê os banheiros são sujos, do porquê os atletas não conseguem ganhar medalhas.
Que as mulheres estejam confinadas à cozinha, que pessoas de cor tenham sido escravizadas, é um pesadelo. Acredito que temos que viver em um mundo de respeito, com as mesmas obrigações e os mesmos direitos para todos. Eu não me envolvo com a sexualidade de ninguém, não me envolvo com quem cada um fala, não me importa se essa senhora está vestida de verde ou azul porque não é problema meu, mas há muita gente que quer controlar nossos corpos e nossas mentes. Porque dessa forma eles controlam outras coisas e têm o poder. É muito simples, então; como há tanta gente assim, temos que aturá-las.
Todo filme bom gera discussão, gera críticas, etc. Como você tem recebido as críticas em relação à representatividade mexicana no filme?
Sempre digo, eu pessoalmente não recebi nenhuma crítica. Vi duas ou três na Internet, mas assim como vejo 250 bilhões de notícias no mundo relacionadas ao quão maravilhoso o filme é, obviamente nem todos vão gostar. Você pode gostar do filme, isso seria algo extraordinário. Por exemplo, eu não gostei de “Titanic” e ele ganhou muitos prêmios. Eu gostei de “Rambo” na época, mas nem todo mundo vai gostar de “Emilia Pérez”, isso é óbvio. Se você faz uma crítica com respeito, então obviamente ela é bem recebida. Certamente algumas coisas me fazem pensar, outras não, em certas coisas vamos concordar, outras não.
O problema é que estamos dando muita importância a algo que não tem nenhuma, e o mundo da internet é um mundo de falsidade e mentiras. Então, ninguém parece querer aceitar, porque convém a todos, que a Internet não é a realidade do ser humano, mas sim um mundo paralelo, cheio de mentiras, onde não há identificação real e ninguém assume a responsabilidade pelas suas palavras. Uma criança de 15 anos pode criar cem perfis falsos e dizer a mesma coisa e o oposto no mesmo dia. Bem, não sei por que damos relevância a isso, e especialmente a redes sociais como o X (antigo Twitter) ou outras, que parecem já ter sido criadas diretamente para as pessoas odiarem as coisas. Isto é, para que tenham a notícia imediatamente, mas para que possam odiá-la diretamente e possam contar quantas mentiras quiserem. Então não posso dar credibilidade a elas, nem posso me sentir angustiada por alguém que se autodenomina “azucarillo3426”, que diz representar todo o México, ou toda a América Latina.
Então eu digo a vocês, para mim e para todas as pessoas que conheci pessoalmente no México, a única coisa que me disseram foram maravilhas. Até Eugenio Derbez, um ator mexicano muito conhecido, só foi pego em uma entrevista com o público em que disse: “Olha, me parece que Selena [Gómez] fala mal espanhol.” Mas dali para o que ele me contou pessoalmente é um mundo à parte. Ele me contou pessoalmente, em Nova York, que achou o filme maravilhoso, elogiou minha performance e jurou que nunca tinha visto nada parecido na vida.
Então é o que me resta, o absurdo das redes sociais. Tem uma certa imprensa que também fica brava porque gosta muito de gerar morbidez e notícias constantemente relacionadas a isso. Não nos vamos iludir, e é claro que há muitos interesses à direita, à esquerda, de pessoas que têm suas comunidades e seus “community managers”, funcionários nas redes sociais que atiram pedras. Mas ambos os lados, é por isso que ninguém está interessado em falar sobre isso, porque faz-se isso de todos os lados. Todos os dias eu recebo milhões de insultos e idiotices de pessoas que eu não sei quem são.
Por exemplo, vou falar uma coisa que não gosto. Eu conheço a Fernanda Torres pessoalmente. Eu acho ela uma mulher maravilhosa, uma atriz fantástica que merece todos os prêmios e reconhecimento. Por ser uma mulher que trabalha com toda a alma e com todo o coração, ela fez um filme maravilhoso e eu a apoio em tudo que posso. Se ela ganhar, ótimo; se eu ganhar, maravilhoso. Mas não significa que ela seja melhor ou pior. O que não suporto é que em cada notícia sobre mim ou em cada programa que participo aparecem defensores de um lado e enchem de “aquela atriz é melhor”, “você é uma m****”, “ela que deveria estar no programa”. Então acho que temos que usar os meios de cada um para enaltecer o trabalho uns dos outros e não se prender ao trabalho alheio, muito menos diminuir o trabalho alheio para enaltecer o de outra pessoa. Espero que Fernanda Torres esteja em todos os lugares e ganhe tudo, mas deixem a mim e “Emilia Pérez” em paz.
Você é uma atriz espanhola, mas tem muita experiência trabalhando em telenovelas, que é algo que aqui no Brasil também se consome muito. Como esse background na televisão te ajudou em “Emilia Pérez” e como você enxerga a indústria latina?
Quando fui trabalhar no México em novelas, encontrei um mundo totalmente diferente daquele em que havia trabalhado. Eles trabalham com ponto eletrônico, trabalham muito rápido. E no que as novelas me ajudaram é a ter tudo isso imediato, vamos dizer assim, né? Que o contexto não me pegue desprevenida, certo? Porque gravávamos quarenta sequências por dia, por exemplo. Eu nunca usei um ponto na vida, e, além disso, quando cheguei ao México, queria aprender todas essas técnicas, e acabei me deparando com o exato oposto.
Com um professor em um lugar chamado Casa Azul, que é um professor mexicano e também um ator chamado Eduardo Arroyuelo, que me ensinou uma técnica que eu não conhecia até aquele momento, mas que me ajudou a recuperar a liberdade que eu tinha quando comecei. É chamada de técnica Meisner, que é uma técnica de viver o momento e trabalhar para o momento e para o outro ator ou a atriz na sua frente. E ele salvou minha vida e me ajudou a fazer Emilia Pérez.
Então, tudo o que você faz nesta vida eu acho que é muito relevante para o que você fará no futuro. De uma forma ou de outra, mesmo que você pense que não, a vida te leva pelos caminhos necessários. Há algo muito engraçado nisso, não é?
Quando éramos pequenos e fazíamos dublagens na televisão, os personagens apareciam na televisão. E aparecia, não sei, o Harrison Ford e nós fazíamos a sua voz ou a colocávamos nas bonecas. E quando mudávamos a voz, meus pais vinham e nos repreendiam dizendo “Pare de agir como um tolo, isso é inútil na vida.” Para que você perceba que todas as coisas que fazemos desde pequenos até mais velhos são relevantes. Tudo o que fiz quando tinha 15 anos me ajudou a interpretar essa personagem agora. Então valorizem as coisas que vocês acreditam que valem para tudo neste mundo.
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“Emilia Pérez” chega aos cinemas brasileiros em 6 de fevereiro.
>> Veja a lista completa de indicados ao Oscar 2025
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