Aparecida, 02/07/2026
Vaticano excomunga bispos e membros de grupo católico ultraconservador

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Vaticano excomunga bispos e membros de grupo católico ultraconservador

Líderes da fraternidade Sacerdotal São Pio X ordenaram quatro novos bispos na cidade suíça de Écône, ignorando ordens da Santa Sé.

Ludmilla Ruffo
Ludmilla Ruffo

O Vaticano  declarou nesta quinta-feira (02/07) que padres e católicos integrantes de um grupo católico dissidente  que ordenou bispos sem a aprovação do papa  foram excomungados

Em um decreto, o Dicastério para a Doutrina da Fé  principal órgão de supervisão doutrinária da Igreja — alertou os católicos de todo o mundo que a Fraternidade Sacerdotal de São Pio X, sediada na Suíça, celebra seus sacramentos de forma ilícita.

Os seus seguidores são conhecidos como lefebvrianos, por obedecerem as doutrinas do arcebispo francês Marcel Lefebvre (1905 – 1991).

Com a excomunhão, os religiosos ficam impedidos de receber os sacramentos até que se arrependam e peçam perdão.

O decreto informou que os dois bispos — Alfonso de Galarreta e Bernard Fellay — que conduziram a ordenação não autorizada, realizada na Suíça na quarta-feira, foram excomungados, juntamente com os quatro padres que se tornaram novos bispos: Pascal Schreiber, Michael Goldade, Michel Poinsinet de Sivry e Marc Hanappier.

O Vaticano declarou que todos os padres da Fraternidade Sacerdotal de São Pio X e todos os católicos que “aderem formalmente” ao grupo encontram-se agora em cisma e excomungados.

 “Cisma” é o termo utilizado para indicar uma ruptura grave e formal no seio da comunidade católica.

O decreto diz que o grupo ultratradicionalista não poderá celebrar casamentos nem ouvir confissões de forma válida.

Segundo a agência de notícias Reuters, a Igreja Católica tem a norma estrita de que apenas o papa pode autorizar a consagração de novos bispos, a fim de preservar os vínculos da instituição com os 12 apóstolos de Jesus, considerados os primeiros sacerdotes e bispos.

Na quarta-feira (01/07), apesar de apelos de última hora do papa Leão XIV, a Fraternidade Sacerdotal de São Pio X havia declarado que precisava prosseguir com as ordenações sem a aprovação papal “devido a circunstâncias excepcionais”.

A cena é muito diferente das que se costumam repetir nas manhãs de domingo nas milhares de igrejas católicas espalhadas pelo Brasil.

Depois de um silêncio solene, o som de sinos e um cheiro forte de incenso anunciaram o início da missa das 9h na pequena capela da Fraternidade Sacerdotal São Pio X no bairro da Vila Mariana, em São Paulo, no último domingo de Pentecostes, no fim de maio.

O padre entrou com seus diáconos pelo corredor principal carregando um turíbulo, um objeto de metal com correntes que ele balançava para frente e para trás, como uma espécie de metrônomo no ritmo das preces que recitava de forma melodiosa em latim.

Parou de frente para o altar e lá ficou por cerca de uma hora, os olhos voltados para o Jesus crucificado, as flores e os castiçais sobre o altar enquanto celebrava a cerimônia.

Atrás dele, casa cheia: com os bancos todos ocupados, os fiéis se amontoavam de pé nas laterais da igreja e nas escadas que davam para o mezanino do segundo andar. A maioria não precisava da ajuda dos livrinhos de traduções disponíveis no caixote na entrada para acompanhar as rezas em latim.

Tirando o vermelho com dourado das vestes do padre, predominavam as cores sóbrias. As mulheres e meninas vestiam saias e vestidos longos e usavam lenços de renda para cobrir os cabelos.

A Fraternidade Sacerdotal São Pio X é uma das congregações que se recusam a aceitar as reformas modernizantes que o Vaticano fez nos anos 1960. Continua celebrando missas como no período medieval, em latim, com o padre de costas para os fiéis na maior parte do tempo.

Nasceu em 1970 na Suíça, e desde então desafia a Santa Sé. Em 1988, seu fundador, o arcebispo francês Marcel Lefebvre, chegou a receber o castigo mais severo da Igreja Católica: foi excomungado depois de nomear quatro novos bispos sem autorização do papa João Paulo 2º.

Mesmo com a punição, que proíbe a participação na comunhão e em outros ritos e sacramentos católicos, a congregação cresceu. Se internacionalizou, entrou na América do Sul pela Argentina e nos últimos 20 anos vem ganhando força no Brasil, embalada pelo avanço de correntes conservadoras entre católicos brasileiros.

Nos últimos dias, já se sabia que o grupo nomearia novamente bispos, contra a autorização do Vaticano.

Na missa da Vila Mariana, no breve momento em que falou português, o padre convidou os fiéis que quisessem se juntar à comitiva brasileira a irem ao evento de ordenação na quarta-feira na cidade suíça de Écône. E pediu a todos orações pelos novos bispos.

A Santa Sé já havia avisado que as sagrações sem consentimento papal seriam interpretadas como uma ruptura formal com a Igreja — e que seriam novamente punidas com excomunhão.

“A excomunhão é algo raríssimo de acontecer”, diz o historiador Vinícius Couzzi Mérida, mestre e doutor em Ciências da Religião. “Uma coisa que acontece uma ou duas vezes por século.”