Um teste laboratorial independente identificou a presença de tirzepatida (princípio ativo do Mounjaro) em cinco marcas de canetas emagrecedoras fabricadas no Paraguai e comercializadas ilegalmente no Brasil.
A análise foi conduzida por pesquisadores da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas) a pedido da Folha de S.Paulo e não encontrou mistura com semaglutida, princípio ativo do Ozempic e do Wegovy.
Os produtos analisados
Foram testadas amostras dos medicamentos Tirzedral, TG, Lipoless, Tirzec e Gluconex, fabricados respectivamente pelos laboratórios paraguaios Catedral, Indufar, Eticos, Quimfa e Lasca. Todos têm registro válido na Dinavisa, autoridade sanitária do Paraguai — mas nenhum é registrado na Anvisa, o que torna sua venda proibida em território brasileiro.
O estudo avaliou presença, concentração e estrutura molecular do princípio ativo. Vale ressaltar que não entraram no escopo da análise a checagem de impurezas, contaminantes, nem a eficácia e segurança dos produtos.
As canetas foram adquiridas entre 13 e 15 de maio, por meio de vendedores que anunciam em TikTok, Instagram e WhatsApp, divulgando fotos e vídeos dos produtos e direcionando a negociação para mensagens privadas.
Ao todo, foram compradas quatro ampolas de Lipoless 15mg (R$ 935), quatro de TG 15mg (R$ 1.295), quatro de Gluconex 15mg (R$ 1.050), uma de Tirzec 15mg (R$ 900) e quatro de Tirzedral 15mg (R$ 850), de quatro fornecedores diferentes.
Como referência para a comparação, também foram compradas, na Drogaria São Paulo e mediante receita médica de um profissional que concordou em colaborar com a análise, uma caneta de Mounjaro 2,5mg (R$ 1.422,52) e uma de Ozempic 1,34mg (R$ 975). As amostras seguiram no dia 1º de junho para o CIATox (Centro de Informação e Assistência Toxicológica) da Unicamp, e ficaram retidas no laboratório para descarte após a análise.
A metodologia usada pelos pesquisadores
Os cientistas aplicaram três técnicas complementares: cromatografia líquida de alta eficiência (HPLC-DAD), para separar e quantificar os componentes das amostras; espectrometria de massas de alta resolução (LC-HRMS), para medir a massa molecular das substâncias; e dicroísmo circular (DC), que avalia a estrutura tridimensional de proteínas e peptídeos.
“Se essa estrutura não estiver preservada, o efeito do medicamento não acontece. Pequenas alterações podem ocorrer, por exemplo, se ele for armazenado em temperatura inadequada ou exposto a condições de pH ou de composição da solução diferentes das recomendadas”, explica José Luiz da Costa, professor de toxicologia da Unicamp e coordenador executivo do CIATox, à Folha.
A convergência das três metodologias levou os pesquisadores a concluir que todas as amostras continham princípio ativo equivalente à tirzepatida, com identidade molecular compatível com a do Mounjaro.
O ponto mais preocupante, segundo os cientistas, foi o Gluconex: a concentração encontrada era 60% maior do que a informada pelo fabricante e do que a apurada na amostra de referência de Mounjaro. Nas outras quatro canetas, a variação ficou em até 20% — considerada aceitável pela indústria farmacêutica.
A resposta da Anvisa e da Eli Lilly
A Anvisa reconhece o valor de análises feitas por laboratórios qualificados, mas alerta para o risco de falsos positivos e falsos negativos. Segundo a agência, a avaliação regulatória vai muito além da identificação do princípio ativo e envolve cinco eixos: qualidade farmacêutica, segurança, eficácia, equivalência terapêutica e conformidade documental, além de dados sobre perfil de impurezas, processo de síntese e validação analítica, informações às quais um teste pontual não tem acesso.
A Eli Lilly, detentora da patente do Mounjaro no Brasil, reforça que encontrar o mesmo princípio ativo não comprova segurança, eficácia ou equivalência. A farmacêutica também explica que o desenvolvimento clínico da tirzepatida começou em 2016 e já soma cerca de dez anos de estudos que embasaram as indicações aprovadas — diabetes tipo 2, obesidade ou sobrepeso com comorbidades e apneia obstrutiva do sono em pacientes obesos.
Os riscos
À Folha, Neuton Dornelas, presidente da SBEM (Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia), pondera que relatos de usuários nas redes sociais sobre perda de peso sem efeitos colaterais graves não substituem as evidências exigidas por órgãos reguladores nem eliminam os riscos do uso de medicamentos sem registro sanitário.
Ele cita ainda o problema da automedicação: por serem vendidos em ampolas, os produtos exigem que o próprio paciente aspire a dose com seringa, o que aumenta o risco de erro e pode provocar náusea, vômito, diarreia, desidratação, hipoglicemia e pancreatite.
Na esfera jurídica, o advogado Stefano Ribeiro Ferri, especialista em direito do consumidor e da saúde, destaca que o maior prejuízo de quem compra medicamentos sem registro é a dificuldade de responsabilizar alguém por eventuais danos.
A advogada Anna Goulart, especialista em direito da saúde, explica que não existe reconhecimento automático entre países: mesmo registrado no Paraguai, um produto precisa passar pelo registro na Anvisa — e pelos estudos e ensaios clínicos exigidos no Brasil — para ser vendido legalmente aqui.
Do ponto de vista criminal, o advogado Caio Ferraris, sócio da FVF Advogados, afirma que quem traz do exterior produtos sem registro na Anvisa pode responder por contrabando, crime com pena de dois a cinco anos de prisão. Quem revende esses medicamentos no Brasil pode ser enquadrado tanto por contrabando quanto por crime contra a saúde pública.
O que dizem as plataformas
Procuradas pela Folha, Meta e TikTok afirmaram que a venda desse tipo de produto viola suas políticas. A Meta, responsável por Instagram e WhatsApp, diz proibir tentativas de compra ou venda de medicamentos e produtos farmacêuticos e afirma remover conteúdos quando identifica violações.
O TikTok informou que suas Diretrizes da Comunidade vetam a comercialização ou divulgação de produtos “com potencial para uso indevido na perda de peso ou ganho de massa muscular, que podem apresentar sérios riscos à saúde”.
Com informações da Folha de S.Paulo e Exame